quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

“...E porque ela acreditava eles existiam!”

Enquanto a vida corre lá fora, aqui estou eu tentando entender porque o improvável insiste sempre em acontecer.
Alheia a todas as opiniões, pergunto a mim mesma qual o propósito de tantas surpresas. Seria provar que não somos donos do nosso próprio destino?
Talvez.
Mas acredito que há algo mais. Algo tão sutil que ainda não consegui perceber.
Qual a razão de tantas mudanças? Qual a razão desses encontros tão imprevisíveis?
O que eu ainda não consigo enxergar?
Em nenhum momento da minha vida acreditei no que chamam de acaso. Com este, ando sempre de olhos bem abertos.
O acaso não passa de uma desculpa para trazer o inesperado à nossas vidas, sem que haja a preocupação de trazer consigo uma explicação. Mas esse vazio não me satisfaz... não preenche a lacuna que ainda existe em mim.
Certa vez me perguntaram se eu acreditava em anjos, respondi prontamente que sim. Mas com o passar dos dias, com as experiências vividas acabei esmigalhando essa certeza e deixando seus pedaços pelo caminho.
Pobre de mim, pensei. Sem anjos, sem destino, sem acaso.
E enquanto eu me perdia, havia alguém que, mesmo sem saber, catava os pedaços de “não sei o que” deixados para trás. Catava e guardava em si. Construía em sua alma o que eu acabara de destruir.
E guardou. Talvez por dias, meses, anos. Guardou até o nosso próximo encontro.
E quando me avistou ao longe na estrada em que caminhava, fez de tudo para chamar minha atenção. Foi então que uma leve brisa desarrumou os meus cabelos e me fez olhar para trás; lá estava, acenando e pedindo por um segundo de atenção.
Aproximou-se tímida e vagarosamente. Estava tão cansado e calejado da caminhada quanto eu. Parou, respirou fundo, como se fosse a primeira vez, e disse:
- Tenho comigo algo que lhe pertence.
E estendendo as mãos me ofereceu algo que eu não mais reconhecia.
- O que é isso? – perguntei.
- É a alma que você deixou para trás. Quando a encontrei estava em pedaços, mas fui até o fim do mundo para achar o último deles. E aqui está, inteira novamente.
- O senhor está enganado. Eu não perdi a minha alma.
- Mas então... – tentou entender o que se passava.
- Esta alma é sua.
- Como sabe? Acaso conseguiu entrar e conhecer a minha alma?
- “Eu nunca entrei na sua alma. Eu entrei na minha e a sua estava lá.”**
Era tanta esperança, tanta confiança, tanto desejo... ele pensou, pensou, pensou, e decidiu guardá-la em seu coração. Mas aquele coração que era grande, tornou-se pequeno demais para aquela alma.
Então, ao me ver partir, teve uma idéia.
Decidiu dividir sua alma ao meio. Uma das metades guardou folgadamente consigo; a outra, me entregou como um gesto de agradecimento.
E ao guardar comigo a metade da sua alma tive certeza de ela também tinha asas.
Se me perguntarem hoje se acredito em anjos, direi: não só acredito, como tenho o meu!
E ainda bem que ele me encontrou...

(**Frase adaptada do autor Rubem Alves)

Por Bruna Tupinambá, leitora do Batom e Cinta-Liga

5 comentários:

Paulo (@PauloSoares94) disse...

Que lindo esse texto...
Um texto lindo...
Digno da pessoa especial que o escreveu...

4/1/12
Bruna disse...

É uma honra ter um texto meu aqui!!! Obrigada, meninas! :)

4/1/12
Maria Clara disse...

Que texto lindo!
Me lembrou uma vez que um mendigo escreveu a letra de "Yesterday" dos Beatles e sem mais nem menos, me entregou na rua. :)

4/1/12
JAHJAH disse...

Nem sabia que voce estava apaixonada por mim... que texto lindo! Lembrei do pq te amo...

4/1/12
Naiara e Letícia disse...

A honra é nossa, Bruninha! =)

4/1/12